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Alfredo Ferreira de Oliveira Gândara

by on 3 de Novembro de 2013
 

Alfredo Ferreira de Oliveira GândaraAlfredo Ferreira de Oliveira Gândara nasceu em 13 de Setembro de 1896, na Marinha Grande.

Foram seus pais Joana Ferreira Gândara e João de Oliveira. O pai de Alfredo Gândara era vidreiro e a mãe possuía uma pequena loja.

Frequentou na Marinha Grande o escasso ensino oficial disponível na época sendo autodidacta toda a sua considerável formação posterior – graças à qual veio a investigar, a realizar conferências públicas e a ser, a partir de 1962, membro do Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia.

Em 3 de Outubro de 1917 torna-se “amanuense” da administração municipal, sendo o facto noticiado pel’ O Marinhense, provavelmente o primeiro periódico em que colaborou. A partir de 1921, ano em que vai para Lisboa munido de uma recomendação ao director d’ O Século passada pelo escritor e pedagogo republicano João de Barros (de ascendência marinhense e que o prefaciará em 1954), começa a trabalhar neste jornal. Manter-se-á ligado a O Século até à aposentação, em 1972, aí tendo dirigido durante muitos anos a secção “O Século nas Províncias”. Foi igualmente redactor da Emissora Nacional e da agência noticiosa alemã DNB, tendo ainda deixado colaboração dispersa por vários outros media, nacionais, regionais ou locais – por exemplo, em 1961 a revista Portugal daquém e d’Além-Mar inclui-o na galeria dos seus colaboradores mais assíduos. Dirigiu ainda a publicação Boletim Cultural de Informações.

Gândara foi um activo cidadão situacionista. Durante os anos 1950, foi procurador à Câmara Corporativa e secretário da respectiva Mesa, bem como, por duas vezes (1956 e 57), membro da delegação portuguesa às Conferências Internacionais do Trabalho, promovidas pela OIT. Pertenceu ainda diversas vezes à direcção do Sindicato dos jornalistas, à qual chegou a presidir em 1955, tendo-se batido, no princípio dos anos 50, pela instituição do contrato colectivo de trabalho da classe (unindo-se para o efeito, segundo afirmou posteriormente, a colegas que pensavam “de maneiras diferentes” da sua). Pela mesma altura (1 95 i) é incluído entre as “figuras luso-brasílicas” que a Associação Brasileira de Imprensa convida a visitar aquele país – embora não tenha chegado a efectuar tal visita. Foi condecorado Oficial da Ordem de Cristo.

A sua obra de pendor historiográfico reflecte em parte estas opções, ocupando-se de temas caros ao regime, como os heróicos antecedentes lusitanos da nacionalidade (em “A pedra de Folgosinho”, 1963), a apologia de figuras objecto da religiosidade popular (em Quem foi Santo António de Lisboa, 193 1, primeiro opúsculo do autor) ou mesmo a profundidade e legitimidade das ligações luso-alemãs (em Oito séculos de história luso-alemã, escrito de parceria com um autor daquela nacionalidade e publicado, pelo Instituto Ibero-americano de Berlim, em plena 11 Guerra: 1944). De resto, a germanofilia de Gândara – que o levou a aprender sozinho o idioma demão, com uma grafonola – resistiu à revelação das atrocidades nazis, nas quais sempre recusou acreditar.

A maior parte dos seus textos, porém (considerando opúsculos, separatas e artigos assinados na imprensa) diz respeito a temas marinhenses, sobretudo à história da indústria vidreira – de tal modo que foi considerado, em 1967, “a maior autoridade” neste campo.

É provável que os primeiros textos de Gândara referindo o passado marinhense e vidreiro datem de entre 1921 e 1926, inclusive. Na verdade, surgem nessa altura n’ “O Século nas Províncias” (secção de que era já responsável) notícias sobre a Marinha Grande não provenientes do correspondente local e contendo alusões à história marinhense cujos estilo, temática,, conhecimentos e opiniões implícitos e explícitos são facilmente reconhecíveis noutros textos (assinados) do autor. Acresce ainda o facto de este ter em Abril de 1923 participado num ciclo de conferências promovido pela Comissão Administrativa da Fábrica, proferindo uma palestra intitulada “Vidraria, profissão de beleza” – o que demonstra que já nessa altura Gândara tinha o vidro por objecto de estudo. Por outro lado, é a partir de Maio de 1924 que desenvolve, simultaneamente no anarquista A Batalha e no monárquico Correio da Manhã (dois jornais que, embora por razões bem diversas, combatiam com igual veemência o governo republicano) uma campanha pela permanência da Fábrica, cujo fecho, possivelmente seguido de venda, o mesmo governo acabara de anunciar.

Enfim, todos estes factores indiciam que o interesse de Alfredo Gândara pelos estudos locais foi desenvolvido sob o estímulo dos graves problemas vividos na sua terra na época em que se iniciou no jornalismo, sendo a constante referência ao passado marinhense e vidreiro a foro que encontrou para enquadrar e analisar tais problemas. Também as suas informações sobre o tema começaram por ser colhidas no meio local: como referirá mais tarde, o livro de Joaquim Barosa e o contacto pessoal com este autor foram as primeiras e decisivas fontes da longa pesquisa que a partir daí iniciou.

Os resultados dessa pesquisa vêm a lume em dois opúsculos: Bases históricas e morais do desenvolvimento da indústria do vidro na Marinha Grande, em 1967 e O irlandês João Beare, introdutor da indústria do vidro na Marinha Grande, dez anos depois. Os restantes sete opúsculos e os dois livros que deixou, publicados entre 1931 e 1971, dizem respeito a outros temas. De facto, é, sobretudo na imprensa, local e nacional, assim como em conferências, que Gândara vai ao longo dessas décadas expondo os resultados a que chega. Nunca sairá o texto de grande fôlego sobre a indústria vidreira que por vezes ele pró rio e outros (em artigos na imprensa local, por exemplo) referem ser sua intenção escrever.

Pensou por algum tempo que seria chamado a faze-lo aquando das comemorações dos 200 anos da Fábrica Stephens, em 1969. Segundo menciona, chegou a ser contactado nesse sentido tendo começado a coligir materiais. Mas a decisão inicial foi alterada, facto que lhe causou grande desgosto e ao qual se encontram referências na imprensa local desse ano – uma delas num texto de sua autoria. Aliás, é 1969 o ano em que Gândara mais colabora no jornal da Marinha Grande: pelo menos 12 textos, incluindo poesia. Entre eles, dois grandes artigos sobre a Fábrica Stephens, que de algum modo servem à demonstração do seu conhecimento sobre o assunto e da incorrecção que considera estar implícita no facto de não lhe ter sido confiada a redacção do livro do bicentenário.

Alfredo Gândara casou em 1923 com Maria Amélia Xavier Frazão. Tiveram três filhos: Jorge, Maria Joana e Maria Estela Xavier Frazão de Oliveira Gândara.

Gândara enfrentou deste cedo o infortúnio da progressiva perda de visão. No seu último opúsculo, ditado a um familiar, refere o facto de lhe estar doravante barrado o acesso aos documentos, sendo obrigado a citar “de memória”. Faleceu em Lisboa, a 5 de Fevereiro de 1979.

Ainda em sua vida, em 22 de Agosto de 1972, o município decidiu atribuir o seu nome a uma rua contígua à casa onde residia quando se encontrava na Marinha e onde chegou a reunir muitos dos seus livros. Esta casa, onde Gândara nascera, foi demolida no início de 1996.

Alguns meses após a sua morte o Jornal da Marinha Grande transcreve, em três números, o seu último grande artigo.

Bibliografia do Autor:

Textos não assinados (autoria presumida):

1921, “Um assunto momentoso: o principal centro da indústria vidreira abraços coma fome’, O Século, 16.08.1921. 1921, ‘Um assunto momentoso: a crise da Marinha Grande agrava-se”, O Século, 19.08.1921.

1921, ‘A crise aligeira-se’, O Século, 15.11.1921.

1921, Sem título (sobre manifestação na Marinha Grande contra extorsão de bens municipais), O Século, 11.1 1.1921.

1921, “Um mandado de despejo – os habitantes da Marinha Grande opõem-se tenazmente ao arrolamento de propriedades que lhes pertencem”, O Século, 15.12.1921.

1921, Sem título (sobre a Escola Industrial, então chamada Escola de Vidreiros), O Século, 13.12.192 1. 1922,’A crise da indústria vidreira em via de solução’, O Século, 11.01.1922.

1922, ‘Indústrias locais – a das limas está tomando grande incremento’, O Século, 16.01.1922.

1922, “Indústria nacional – uma homenagem na Marinha Grande ao fundador da Nacional Fábrica de Vidros’, O Século, 28.07.1922.

1924, ‘0 concelho da Marinha Grande”, O Século, 26.o3.1924.

1924, ‘Mais uma negociata na forja. Pretende-se comprar a Fábrica da Marinha Grande, para se entrar depois na posse dos terrenos anexos, que valem perto de 20 mil contos’ Correio da Manhã, 23.05.1924.

1924, ‘Uma nota divertidas questão da Fábrica da Marinha Grande. O Conselho de Ministros pronunciou-se pela venda’, Correio da Manhã, 24.05.1924.

1924, ‘0 negócio da Marinha Grande”, Correio da Manhã, 26.05.1924.

1924, ‘0 escândalo da Fábrica da Marinha Grande”, A Batalha, 28.05.1924.

1924, “Uni bando de corvos voa sinistramente sobre a Fábrica de vidros da Marinha Grande”, A Batalha, 30.05.1924.

1924, ‘A Fábrica de vidros da Marinha Grande – o pedido da sua entrega desagradou profundamente ao operariado.

O que dizem os interessados”, O Século, 22.06.1924.

1924, ‘A Fábrica Nacional de Vidros da Marinha Grande passará para a posse da Câmara Municipal daquela vila?’, A Batalha, 18.06.1924.

1924, “O escândalo da Marinha Grande. Os industriais manobram na sombra, influem para que seja retirada à Fábrica Nacional a regalia das lenhas”, A Batalha, i 9.o6.1924.

1924, “O escândalo da Marinha Grande. Os inimigos da Fábrica Nacional de Vidros conseguem roubar as lenhas que à Fábrica pertencem”, A Batalha, 21.06.1924.

1924, ‘O escândalo da Marinha Grande. O ministro do trabalho está preso à promessa da continuação do fornecimento de lenhas à Fábrica’, A Batalha, 25.06.1924.

1924, ‘O escândalo da Marinha Grande. Pedro Roberto, dos Serviços Florestais, continua triunfante. A lenha será fornecia à Fábrica por conta-gotas. Os abusos do Pinhal de Leiria”, A Batalha, 02.07.1924.

1926, ‘A indústria vidreira atravessa uma crise temerosa”, O Século, 12.10.1926. 1950, “A morte de Rodolfo de Oliveira’, A Voz da Marinha Grande, 20.04.1950.

Textos assinados:

1923, ‘Vidraria, profissão de beleza” (conferência proferida no Teatro Stephens, por iniciativa da Comissão Administrativa da Fábrica), manuscr.

1930, “A indústria vidreira: o regresso à tradição stephens cana da Fábrica da Marinha Grande’, O Século, 12.01.1930.

1931, Quem foi Santo António de Lisboa, Lisboa, ed. autor.

1939, “Marinha Grande – a capital do vidro português’.’, Portugal daquém e d’Além-Mar, Março 1939. 1940, ‘Saudade de Joaquim Barosa”, Correio da Marinha Grande, 12.12.1940.

1941, “Guilherme Stephens”(texto do qual Gândara depôs uma cópia, com um ramo de flores, junto ao monumento a Stephens recém-inaugurado), Correio da Marinha Grande, 11.09.1941.

1941, ‘A propósito dum aniversário’, Correio da Marinha Grande. 23.10.1941.

1941, “A situação dos vidraceiros”, Correio da Marinha Grande, 30.10.1941.

1944, “Henrique de Carvalho”, A Voz da Marinha Grande, 09.03.1944.

1944, (em co-autoria com E. A. Strassen) Oito séculos de história luso-alemã, s. I., Instituto Ibero-Americano de Berlim.

1948, “A indústria do vidro em Portugal até ao seu estabelecimento na Marinha Grande” (conferência proferida no Teatro Stephens, por iniciativa do Colégio Afonso Lopes Vieira na ocasião dos 200 anos da indústria do vidro na Marinha Grande), A Voz da Marinha Grande (quase na íntegra, sob a epígrafe ‘A notável conferência do ilustre jornalista Alfredo de Oliveira Gândara”), 24.04.1948, 30.04.1948.

1948, “A indústria do vidro em Portugal, Portugal daquém e d’Além-Mar, Junho 1948.

1952, “As tradições intelectuais e artísticas da Marinha Grande”, A Voz da Marinha Grande, 07.08.1952. 1953, As raízes da obra de Afonso Lopes Vieira, Marinha Grande, Comissão Municipal de Turismo. 1953, Carta aberta ao presidente do Sindicato Nacional dos jornalistas, s. I., ed. autor.

1954, Isabel, filha de D. João 1, prolongamento histórico de Joana d’ Arc, Lisboa, Livraria Bernardo. 1955, (sobre O Mundo é bem pequeno), O Século, 09.04.1955.

1956, ‘A imprensa regional ao serviço da Nação”, Portugal daquém e d’ Além-Mar, separata, 1956.

1957, ‘Símbolo da indústria vidreira”, A Voz da Marinha Grande, 11.07.1957.

1957, ‘Carta de Lisboa. João de Barros”, A Voz da Marinha Grande, 05.12.1957.

s. d., E 1957 ou 58), A 017’e a 39′ Conferência internacional do Trabalho, s. I., s. n.

1963, ‘A pedra de Folgosinho”, Portugal daquém e d’ Além-Mar, separata, 1963.

1967, “Bases históricas e morais do desenvolvimento da indústria do vidro na Marinha Grande”, Portugal d’ Aquém d’Além-Mar, Março 1967. Também separata.

1967, “Breve história do vidro em Portugal”, Acção, n.” 12, 1967.

1969, “Engenheiro Mário Gallo”, Jornal da Marinha Grande, 16.01.1969.

1969, “Val fazer dois séculos a Nacional Fábrica de Vidros de Marinha Grande, bela e solidamente erguida com , vista à perpetuidade” O Século, 17.01.1969. Transcrito no jornal da Marinha Grande, 20.01.1969,13.02.1%9, )3.03.1969.

1969, “As homenagens ao visconde da Marinha Grande e a João de Barros na Figueira da Foz “Jornal da Marinha Grande, 13.06.1969.

1969, “Fábrica Real” (versos),Jornal da Marinha Grande, 18.07.1969.

1969, ‘Os duzentos anos da Nacional Fábrica de vidros – mãe da Marinha Grande e da moderna vidraria portuguesa” Jornal da Marinha Grande, 16.10.1969.

1969, “Para a história’, Jornal da Marinha Grande, 31.10.1969.

1969, “João Diogo Stephens’ (versos), Jornal da Marinha Grande, 14.11.1969. 1969, “A minha mulher” (versos), Jornal da Marinha Grande, 28.11.1969.

1969, “A morte de uma artista” (versos), Jornal da Marinha Grande, 28.11.1969.

1969, “Lúcio Fèteira e os operários vidreiros”, Jornal da Marinha Grande, 21.12.1969.

1969, ‘A inauguração do novo complexo da Covina”, Portugal daquém e d’ Além-Mar, Dezembro 1969.

1970, ‘Eng. Calazans Duarte” (versos), Jornal da Marinha Grande, 14.02.1970.

1970, “O Engenheiro Calazans Duarte, restaurador da Nacional Fábrica de Vidros da Marinha Grande, Portugal daquém e d’Além-Mar, Junho 1970.

1970, “A morte do industrial e poeta João Fèteira”, Portugal daquém e d´Além-Mar, Setembro 1970.

1971, “O industrial-poeta João Tomé Fèteira morreu há um ano”, Portugal daquém e d’Além-Mar, Setembro 1971.

1977, “O irlandês João Beare, introdutor da indústria dó vidro na Marinha Grande’, Portugal daquém e d’Além, Setembro 1977.Também separata. Também publicado no jornal da Marinha Grande, 19.01.1978, 28.01.1978, 2.02.1978.

1971, “A vida prodigiosa de Lúcio Thomé Fèteira’, Portugal daquém e dAlém-Mar, separata, 1971.

1978, ‘Três nomes para a história da Marinha: Frederico de Warnhagen, Conde de Azarujinha,Víctor Gallo, Portugal daquém e d’Além-Mar, Dezembro 1978. Transcrito no Jornal da Marinha Grande, 01.03.1979,08.03.1979, 5.03.1979.

1987, “Marinha Grande”, O Correio, 30.01.1987.

in: VIDAS PASSADAS OBRAS PRESENTES
(pinhal do rei – documentos concelhios)
Exposição Documental e Bibliográfica
Câmara Municipal da Marinha Grande
(projecto Núcleo de Arquivo e Documentação)

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